quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Biografia: Joana d'Arc

 Joana d'Arc nasceu em uma família de camponeses em torno de 1412 -é um dado impreciso pois naquela época não importava a idade exata, assim as pessoas se baseiam no seu interrogatório em 24 de Fevereiro de 1431, onde ela teria dito que na época tinha 19 anos - na cidade de Domrémy, na região de Lorena na França. Filha de Jacques d'Arc e Isabelle Romée, tinha mais quatro irmãos, sendo ela a mais nova de todos. O seu pai era agricultor e a sua mãe ensinou-lhe todos os afazeres de uma menina da época, como fiar e costurar. Joana também era muito religiosa e começou a ter visões espirituais ainda em sua adolescência. Foi em 1425 que teve visões de São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida, que lhes disse para expulsar os ingleses e trazer o rei Carlos VII para sua coroação. É difícil dissociar a Guerra dos Cem Anos da história de Joana d'Arc, por isto farei uma breve contextualização desta.
Desde que Guilherme se apoderou da Inglaterra, em 1066, os monarcas ingleses começam a controlar extensas terras no território francês. Com o tempo, passam a controlar várias partes do território francês, como Aquitânia, Gasconha, Poitou, Normandia etc. Quando a França tentou recuperá-los, deu origem a Guerra dos Cem Anos. O início da guerra ocorreu em 1337 pela disputa dinástica. Como Eduardo III, possuia alguns territórios na França, achou-se no direito de reclamar a coroa para ele, já que o rei francês Carlos IV morreu em 1328 e, ele não tinha herdeiros. Havia ainda a Lei Sálica, segundo a qual o trono não poderia ser ocupado por um sucessor vindo de linhagem materna. Porém, a assembléia francesa, optou por um candidato nacional, o seu primo por parte materna, Filipe de Valois, que fora aclamado e proclamado Filipe VI, o rei da França. Eduardo III, recusou-se a reconhecê-lo como rei, e assim também se proclamou como rei da França. E a batalha continuará.
Em 1422, com a morte de Carlos VI, os borguinhões coroam Henrique VI da Inglaterra como rei francês, mas as pessoas de Orleães (armagnacs) não desistiram e mantiveram-se fiéis ao filho do rei, Carlos VII, coroando-o também em 1422 como o seu rei. Em 1428, Joana começará a mudar a história da guerra. Ela estava convencida de que tinha um chamado especial de Deus para salvar a França da ocupação do Exército Inglês, e por isso foi a Vaucouleurs pedir ao comandante da guarnição, o conde Robert de Baudricourt, para mandá-la para a corte real francesa em Chinon, onde estava o herdeiro da coroa francesa. No ano de 1429, Baudricourt aceitou enviá-la junto a uma escolta até ao herdeiro. Chegando a Chinon, Joana já dispunha de uma certa popularidade, porém Carlos VII tinha ainda desconfianças sobre a moça. Decidiram passá-la por algumas provas e as autoridades eclesiásticas submeteram-na a um interrogatório averiguando suas intenções. Convencido do discurso de Joana, o rei entrega-lhe uma espada, um estandarte e o comando das tropas francesas, para seguir rumo à libertação da cidade de Orleães, que havia sido invadida e tomada pelos ingleses há oito meses. Munida de uma bandeira branca, ela chega a Orleães em 29 de Abril de 1429. Comandando um exército de 4000 homens ela consegue a vitória sobre os invasores no dia 9 de Maio de 1429. Está é uma das versões, porém existe uma outra que diz que ela teria chegado para a batalha num cavalo branco, com armadura de aço, e segurando um estandarte com a cruz de Cristo, circunscrita com o nome de Jesus e Maria. Nesta segundo versão, Joana teria sido apenas arrastada pelo fascínio dos seus sonhos e disposta a cumprir a missão segundo a vontade divina e sem saber nada sobre a arte da guerra comandou os soldados de forma que todos a respeitavam por ser extremamente disciplinada. Após a libertação de Orleães, os ingleses pensaram que os franceses iriam tentar reconquistar Paris ou a Normandia, e ao invés disto, ela convenceu Carlos VII a iniciar uma campanha sobre o rio Loire. Isso já era uma estratégia de Joana para conduzi-lo a Rouen.
Em 1430, Joana d'Arc passou a tentar libertar a cidade de Compiègne, onde acabou sendo dominada e capturada pelos borguinhões, aliados dos ingleses, em 1430. O processo contra ela teve início no dia 9 de Janeiro de 1431, sendo chefiado pelo bispo de Beauvais, Pierre Cauchon. Durante todo o tempo, ela usava roupas masculinas e tinha uma armadura feita especialmente para ela. No dia 21 de fevereiro Joana foi ouvida pela primeira vez e interrogada sobre as vozes que ouvia, sobre a igreja militante, e sobre seus trajes masculinos. No dia 27 e 28 de Março, Thomas de Courcelles fez a leitura dos 70 artigos da acusação de Joana, e que depois foram resumidos em 12. Os 12 Artigos1, lidos em público no dia 23 de maio, consistiam basicamente em:
1º - As aparições que Joana d'Arc via desde os 13 anos eram ligadas ao demônio.
2º - Os sinais dados ao rei, para comprovar que ela era mesmo uma enviada de Deus, eram mentiras que denegriam a Igreja.
3º - Não era possível reconhecer os anjos nas vozes que ela descreveu ouvir e seguir seus conselhos foi um erro de fé.
4º – Fez uso de adivinhação e superstição para saber dos acontecimentos.
5º - Ao usar roupas masculinas blasfemava contra Deus e transgrediu a fé cometendo assim idolatria.
6º - Foi blasfemadora ao colocar os homens em conflito em nome de Deus.
7º - Transgrediu os mandamentos de Deus no momento que não honrou o dever com seus pais (fugiu de casa para concluir sua missão).
8º – Ao saltar da Torre de Beaurevoir desrespeitou à fé e portanto cometeu um pecado mortal.
9º – É contraditória quando argumenta que guardou sua virgindade para garantir sua ascensão ao céu, cometendo assim um pecado contra a fé cristã.
10º - Ao dizer que os santos estavam contra a Inglaterra para estar ao lado dos franceses blasfemou contra eles.
11º- Usou-se de idolatria e invocação para manter contato com as vozes, o que era um outro erro na fé.
12º - O pecado de não reconhecer o poder designado por Deus à Igreja Militante.

Os ingleses não podiam somente condená-la e matá-la. Tudo indica que eles não queriam que ela se tornasse uma heroína para o povo e que conseguisse concluir a sua missão de coroar Carlos VII, por isso, passam ela por um processo inquisitorial para tentar deslegitimar suas ações para que pudessem atingir a autoridade do rei, pois, se comprovassem que ela não era orientada por Deus como se dizia, Carlos VII também não poderia se auxiliar nela para se legitimar política e religiosamente. Enfim, como Macedo (MACEDO p. 87-8 apud CERINI p. 66) afirma, o processo teve um duplo sentido, sendo um de caráter religioso e o outro de caráter político. Foi de caráter religioso, porque procurou examinar os fundamentos da fé de Joana, acusada de heresia e de bruxaria e, fora político, porque a condenação ou a absolvição influenciaria no resultado do conflito entre a Inglaterra e a França. Se ela fosse considerada culpada, Carlos VII poderia ser acusado de ter sido auxiliado pelos poderes maléficos da magia negra e, nenhum rei cristão poderia ter sua soberania pautada em ações heréticas. Em outras palavras, toda a ação de Joana para coroá-lo teria sido em vão, e sua posição como rei seria ilegítima.
No dia 5 de abril os artigos, anteriormente citados, sustentavam a acusação formal para Joana procurando a sua condenação. Joana é executada como herege, em Rouen, em 1431. Ela entrou, vestida de branco e após lerem o seu veredito, Joana foi queimada viva. As suas cinzas foram atiradas ao rio Sena, para que não se tornassem objeto de veneração pública.
A revisão do seu processo, a pedido da família, começou a partir de 1456, quando foi considerada inocente pelo Papa Calisto III, e o processo que à condenou foi considerado inválido. No ano de 1909 a Igreja Católica autoriza a sua beatificação e em 1920, Joana é canonizada pelo Papa Bento XV. Joana d´Arc desta maneira teve a sua honra reabilitada, e os nomes de feiticeira e bruxa foram apagados de sua biografia para que ela fosse reconhecida pelas suas virtudes heróicas, provenientes de uma missão divina. Joana como um mito2 só tem crescido com o passar dos anos. Enfim, a imagem de Joana d'Arc vai se transformando ao longo da história, sendo considerada hoje uma heroína nacional da França.



2 Mito, segundo o conceito de Campbell, é o que dá forma ao mundo e atribui sentido a ele. É uma tentativa da humanidade de compreender a razão e o propósito da existência, da experiência humana. Campbell, ainda explica que o mito tem quatro funções básicas: a metafísica, a cosmológica, a sociológica e a pedagógica. Sua função metafísica serve para nos despertar para o mistério, o desconhecido; sua função cosmológica serve para descrever o universo, o nosso mundo como um todo, de modo que tudo nele contido tenham sentido e significado para nós; sua função sociológica serve para estabelecer “a lei”, os códigos morais e éticos para as pessoas daquela cultura seguirem, enfim, serve para legitimar a ordem social. Sua função pedagógica serve para nos conduzir às varias etapas da nossa vida, do nascimento à morte.

Encilhamento

Aumento do trabalhador assalariado, grande numero de imigrantes estrangeiros e fim da escravidão, eis o contexto do Brasil pós proclamação da República. Porém, há uma crise econômica grave, que ocorre entre 1890 e 1891, devido á abolição da escravatura onde os fazendeiros não seriam ressarcidos pelo dinheiro gasto durante todo o tempo em que tinham escravos e agora teriam que ter dinheiro para pagar empregados, assim, acabam por pressionar o governo para adquirir empréstimos mais facilmente. Enfim, inicia-se então a emissão de papel-moeda, repassado aos fazendeiros pelos bancos privados. Essa política não foi suficiente. Essa politica econômica ficou conhecida como Encilhamento, que era uma política heterodoxa que vigorou de 1860 a 1898. Este termo é uma analogia, pois encilhar no hipismo, é preparar para entrar com o cavalo na pista e para designar o clima de confusão e desordem que reinava nos jóqueis. Enfim, para nós, este termo veio para dar sentido ao preparo do Brasil para um nova fase: a industrialização, e para designar a jogatina com os títulos da bolsa de valores.

Para o autor Schulz, o objetivo era promover a industrialização brasileira e estimular a atividade econômica do país. Para Rui, o encilhamento levaria o país ao crescimento industrial, graças ao crédito fácil, e ainda representaria uma forma do Brasil acabar com o vício econômico gerados pela escravidão. O efeito imediato dessa politica econômica foi a desvalorização da moeda que resultaria um surto inflacionário, causado pela introdução excessiva de dinheiro na economia; fechamento de muitas empresas e à falência de tantos outros investidores, devido a intensa especulação e surgimento de empresas fictícias; desemprego e recessão. Mas, há também alguns pontos positivos, como o crescimento da indústria brasileira, através do crédito fácil, e a lavoura também foi beneficiada, pois todos que exportavam ganhavam mais.

Segundo Schulz, embora três ministros, que são as pessoas envolvidas na promoção desta politica, tenham sido responsáveis pelo comando da economia no período, que são o visconde de Ouro Preto (fez conversibilidade das notas e financiou os empréstimos agrícolas usando-se da venda de bônus), Rui Barbosa (experimentou brevemente as notas com lastro em bônus e permitiu que os bancos emitissem dinheiro) e barão de Lucena (continua a expandir notas sem lastro mas é derrubado do poder), a culpa pela crise normalmente é atribuída à gestão de Rui, por ele querer que o decreto de 17 de janeiro fosse permanente e pela sua política monetária expansionista durante uma alta mais do que numa crise. Em outras palavras, ele é comumente apontado como responsável pelos desequilíbrio financeiro do período. Ainda segundo o autor, os três governos erraram quanto a não controlar o cambio e não supervisionar a Bolsa de Valores. O fracasso poderia ter sido evitado se tivessem sido mais responsáveis. A politica econômica só se normalizaria no governo de Campos Sales, que implementa uma política de saneamento da moeda como reação anti-inflacionária.

Breve resumo da ditadura civil-militar brasileira

O  governo Castelo Branco

O governo de Castello Branco manteve-se fiel ao ideal sobornista: promover, via integração institucional, o modelo de civilização realizado pelos países centrais do sistema capitalista. Assim, também, na área política. Para corrigir as distorções que marginalizavam os udenistas e seus aliados, o governo começou com uma série de reformas.
Uma das mais importantes, a da administração pública, visava racionalizar a organização e os métodos de trabalho da máquina burocrática de modo a capacitá-la para desempenhar funções no quadro do capitalismo maduro. No plano político-partidário, tal reforma tal reforma tenderia a destruir as fontes de alimentação das práticas clientelistas que bloqueavam a alternância no poder.
Outra grande iniciativa foi a proposta da reforma agrária, que tratava-se de eliminar os proprietários incapazes de modernizar seus estabelecimentos, ao mesmo tempo em que seria gerada, por meio de apoio governamental , uma nova pequena-burguesia rural, autônoma e competitiva, a coexistir com as médias e grandes unidades capitalistas. Providências desse tipo, testemunhavam a disposição de restabelecer um regime reformado de cunho liberal-democrático.
Os autores também vão destacar o conflito entre os castelistas e duros e sua permanente disputa pela definição do rumo a ser imprimido ao processo político. No plano político, o governo de Castello aparece como um suceder de derrotas. Não queria a cassação de JK, mas foi obrigado a realizá-la; opunha-se a prorrogação de seu mandato, mas acabou por aceitá-la; convocou as eleições de outubro de 65 contra as resistências da oficialidade dura, mas logo a seguir, editou o AI-2 para apaziguá-la; queria um nome identificado com o seu ideário para substituí-lo na presidência, mas assistiu impotente ao crescimento da candidatura de seu ministro da guerra.

O AI-5 em 1968

O período que começava com Costa e Silva, caracterizava-se como o que os autores chamam de abertura política. Ao mesmo tempo, o slogan da humanização coloria as diretrizes da ação governamental. Para explicar o que iria se passar é preciso levar em conta além das frustrações continuadas as esperanças despertadas e autoconfiança ressurgida. Daí vinha o ânimo que organiza a Frente Ampla. Três dias após a posse do novo presidente, Lacerda reconhecia que as diretrizes traçadas pelos ministros do Planejamento e do Interior eram de fato as mais apropriadas para o país. Logo depois, JK diria a mesma coisa.
Lacerda que mobilizara a direita para impor a sua candidatura contra a vontade de Castello Branco, iria agora mobilizar a esquerda para disputar com a direita sucessão de Costa e Silva. Embora os emedebistas temessem a reação militar que as atividades da Frente poderiam suscitar, a opção oficial do partido foi a de não se indispor com os parlamentares frentistas e com as parcelas radicalizadas da opinião pública. A existência e o desenvolvimento da Frente contribuíram para aguçar a combatividade do movimento estudantil que já optara pelos métodos não-convencionais de luta política. Mas o estopim foi a morte do estudante Edson Luís num choque entre a polícia e estudantes que simplesmente reivindicavam a melhoria de um restaurante. A partir daí, deflagra-se a crise que irá culminar com a edição do AI-5.

Comparando os governos Médici e Geisel

Surgido em 69 como solução intermediária para a crise militar , já em meados do ano seguinte, o governo Medici havia vencido as últimas resistências internas, havia acimentado as suas bases de apoio e começava a colher os dividendos políticos dos repetidos sucessos que passaram a se acumular.
A economia brasileira segue em sua inflexão ascendente. De 70-73, a propaganda do governo bombardeava a população com a mística do “Brasil Grande”, com as evidências dos progressos alcançados e o apelo agressivo dos projetos-impacto, procurando explorar ao máximo o efeito ideológico das políticas sociais. Um país forte, dinâmico, seguro, em paz consigo mesmo.
A situação vigente , em que a ordem institucional sobrepunha-se à ordem constitucional numa convivência precária e embaraçosa, era uma situação menos do que satisfatória. Por um lado, ela contaminava o processo político com um grau pouco tranquilizador de imprevisibilidade; por outro, deixava pendente uma série de problemas, dentre os quais o da sucessão era o mais angustiante.
A questão do modelo político violento comparece como um dos pontos permanentes na agenda do debate público. Recebendo estímulos que provinham dos setores liberais da vida nacional, da igreja, da grande imprensa, da judicatura, da intelectualidade, Medici solicita a atenção dos políticos e chega a alcançar os círculos militares.
Já na atuação política do governo Geisel, está a máxima prudência, o gradualismo que caracterizou o seu projeto. O contraste com o intento de Castello de assegurar a normalidade política pela outorga de uma nova constituição não poderia ser mais gritante. Com Geisel, as regras formais, as disposições escritas perdem muito de sua aura; na sua gestão, todo privilégio é concedido às normas efetivamente operativas no comportamento político dos atores, que devem aprender a se movimentar num campo onde predomina o tácito, o subentendido. De outra parte, à diferença do que se fez no passado, agora não se estipulam metas, nenhum compromisso é estabelecido. Prazos não são definidos. Não se pensa num retorno ao estado de coisas do passado, não se acena com a perspectiva de anistia, eleições diretas, alternância de poder ou qualquer outro item que pudesse indicar a democracia como alvo.
A normalização que se pretendia é o da ordem revolucionária. Mais do que um programa de transição, o que se esboça era um projeto de institucionalização do regime autoritário, que prevê medidas liberalizantes, mas apenas na medida em que sirvam a esse propósito.




Resenha do texto "O Carnaval da tristeza: os motins urbanos do 24 de agosto", de Jorge Ferreira

Jorge Ferreira em seu belo texto, pretende analisar como a notícia da morte de Getúlio Vargas foi recebida pela multidão. Chegando na conclusão de que os brasileiros resistiram em acreditar na notícia e partiram para as ruas almejando atingir os oposicionistas ao governo getulista, Ferreira acredita que é através dos protestos é que podemos observar a mentalidade política e social da época. 

Ao longo do texto, veremos que, ao contrário de um pensamento histórico que explica que os sentimentos das “pessoas comuns” que tomaram conta das ruas do país foram de pouca importância e sem capacidade de intervenção frente as decisões dos grandes atores políticos, Ferreira acredita que foram as manifestações populares que revoltados e amargurados assustou e ameaçou os oposicionistas que queriam tomar o poder. Assim, os populares, causaram grandes problemas às autoridades , obrigando a imprensa a registrar suas manifestações.

Vale ressalvar que o nome do texto de Ferreira é “O carnaval da tristeza: os motins urbanos do 24 de agosto” e ele faz a comparação entre o carnaval e os motins pois estes seguem a mesma lógica dos foliões já que as interdições foram suspensas e as hierarquias subvertidas. Enfim, tínhamos um movimento de produção de símbolos para derrubarem Vargas do governo e desmoralizá-lo politicamente. Contudo, não se teve o efeito desejado, e os símbolos se voltaram contra os seus forjadores, fazendo com que a população discordasse dos oposicionistas e fizessem tais ações contra a tristeza que sentiam, ao perderem o seu pai-protetor.

O objetivo de Jorge Ferreira é, como ele mesmo afirma no início do seu texto, ao resgatar e trazer para o centro as manifestações de tristeza e revolta da população urbana brasileira, diante da morte de Vargas, afirmar que tais manifestações foram um episódio decisivo para desarticular o movimento oposicionista que estava em curso naquele momento.

Para Ferreira, as ações populares, por todo o país, mas principalmente no Rio de Janeiro que era a capital do país, foram elementos decisivos para a desarticulação do movimento político oposicionista para a tomada do poder. Assim, os populares, causaram grandes problemas às autoridades, obrigando a imprensa a registrar suas manifestações, e, a sua tomada das ruas não foram de pouca importância e, portanto, tiveram uma potência frente aos rumos novos que o país tomaria.

O autor é bastante feliz ao usar de toda uma literatura conceitual para dialogar com os acontecimentos políticos que ocorreram no dia da morte de Vargas. Ao falar da construção de símbolos e significados por parte dos oposicionistas, ele não poderia deixar de citar a contribuição de Chartier para o pensamento, já que ele nos oferece o conceito de representação. Ao falar de representação, não poderia deixar de fora do diálogo, o conceito de imaginário social de Ansart. Se o mundo simbólico criado pelos oposicionistas não passavam de um teatro, nada mais favorável do que chamar para a conversa o Balandier, com o seu conceito de teatocracia. Por mais que sejam autores que nunca sentaram para uma conversa, o pensamento deles tende a contribuir um para o outro, e Ferreira, sabe usá-los para escrever o seu texto, de uma forma muito elucidativa e envolvente.


O texto de Ferreira, foi muito importante para a minha visão aprimorada do período. Antes, não tinha notícias de como a população recebeu e agiu ao saber da morte de um dos mais lembrados ou senão o mais lembrado presidentes do país. Ferreira faz um texto muito envolvente, claro, e com uma profundidade imensa. É um texto com uma potência comunicativa, educativa, histórica e literária. Se eu tivesse o lido antes para o meu artigo sobre a morte de Vargas, com certeza estaria nas minhas referências. 

Algumas abordagens sobre o golpe civil-militar de 1964 no Brasil no texto de Carlos Fico

Carlos fico, indica três correntes que marcam a literatura sobre o golpe de 1964. O primeiro, é o da ciência política. Nesta corrente, destaca-se os trabalhos de: Alfred Stefan e Argelina Cheibub Figueiredo.

Na sua tese, Stefan, irá defender a instituição militar como sendo um subsistema que reage a mudanças no conjunto do sistema político e o golpe, que ele chama de revolução, como derivado de razões resultantes da inabilidade de João Goulart em reequilibrar a política. Isto, nos possibilita uma pergunta: por que os militares não tomaram o poder antes, quando derrubavam os presidentes? Stefan nos responde que antes, os militares não estavam convencidos de que tinham autoridade e legitimidade para isto e que também não se sentiam ameaçados, por isto antes de 64 depunham o presidente e passavam para outro grupo de civis, mas não assumiam o governo, ´e o que o autor chama de relacionamento moderador. O autor Fico, nos aponta algumas críticas e elogios ao trabalho de Stefan. Como críticas, temos: a insuficiência no padrão moderador já que existiu interferências diretas dos militares na política antes de 64; constrói um modelo explicativo com grande alcance de generalização; é problemática a visão do sistema militar como variável dependente da política global; superficialidade na análise histórica da ideologia militar antes do golpe e afirma que o autor não dá conta do problema da heterogeneidade política dos militares. Como elogio, Fico diz que o trabalho de Stefan: aponta a necessidade de se estudar os militares considerando as suas interações com a sociedade e suas características de grupo; demonstra que é possível pesquisar sobre o tema e divulga para os historiadores o que animava os cientistas sociais e políticos.

Argelina, uma cientista política, em sua tese, recusa algumas teses de caráter determinista, isto é, aquelas que afirmavam a inevitabilidade do golpe. Assim, ela recusa a centralidade do papel da burguesia na conspiração que é defendida no trabalho de Dreifuss, já que a simples existência de uma conspiração não seria suficiente para o golpe; diverge de Stefan, que afirma que no final do governo Goulart, o presidente radicalizando sua posição, acabou por erodir possíveis apoios. Assim, ela chama a atenção para a necessidade de análise das escolhas anteriores que haviam estreitado o leque de opções abertas à ação política. Seu trabalho tem como virtude ser de alto nível e chamar a tenção para episódios obscurecidos ou superficialmente tratados em outros trabalhos.
Já a segunda, é a marxista. Aqui, destaca-se os trabalhos de: Wanderley Guilherme dos Santos, Jacob Gorender, René Armand Dreifuss e Daniel Aarão Reis Filho.

Em seu trabalho, Wanderley Santos, tem como motivação a insuficiência no arcabouço convencional da análise do período tendo como hipótese da causa do golpe as disputas dos grupos sociais adversários na conquista de bens materiais. Enfim, a sua hipótese central, é que a crise de 64 foi uma crise de paralisia decisória e o golpe foi um resultado do emperramento do sistema político, isto é, o golpe foi resultado da imobilidade do governo. Vale ressalvar, que entre o trabalho de Santos e de Stefan, há um ponto de discordância, que está no local de coalizões. Para Santos, a coalizão era parlamentar, para Stefan era eleitoral. Enfim, para Santos, o verdadeiro foco de disputa política estaria no padrão das coalizões do congresso. Como virtudes, o seu trabalho: não constrói um modelo generalizante, como os dos cientistas políticos; contém um esforço teórico e rigoroso levantamento, sistematização e análise de dados empiricamente; chama a atenção para o fenômeno da rotatividade ministerial; busca demonstrar a “paralisia decisória” de forma empírica e não como uma impressão; chama a atenção para a importância das questões parlamentares, do congresso, dos partidos políticos pois a literatura não costuma considerar a dimensão política institucional das crises do período no plano parlamentar e confirma que antes de 64 o sistema político havia ficado operacionalmente comprometido. Como deficiência, Fico aponta que a crítica ao paradigma tradicional é bastante confusa, pois não se sabe se está criticando os marxistas ou os populistas, e Argelina Figueiredo, diz que sua ênfase nos aspectos político-institucionais o leva a subestimar o caráter sócio-econômico dos problemas.

Gorender, no seu trabalho, faz um estudo da esquerda e da luta armada. Ele afirma que o modelo de substituição de importações só considera o aspecto superficial e deriva da idéia de que o processo econômico se reduz a uma sucessão de modelos de política econômica. Para Gorender, é ao contrário, a crise econômica de 62-65 foi a primeira crise cíclica nascida no processo interno do capitalismo brasileiro e revelou o seu amadurecimento. Como virtudes, o seu trabalho: se diferencia de outros autores ao indicar a existência de riscos de efetiva vitória da esquerda antes de 64 e consolida duas razões para o golpe: o papel do estágio do capitalismo brasileiro e o caráter preventivo da ação da ameaça da esquerda.

Em seu trabalho, Dreifuss pressupõe que o domínio econômico do capital multinacional na economia brasileira não encontrava uma correspondente liderança política. Assim, Dreifuss discorda de Gorender. Para Gorender, o vetor da luta política estava na substituição do controle de tipo populista das classes populares por outro decididamente coercitivo. Já para Dreifuss, o vetor da luta política estava na conquista da hegemonia pela fração multinacional-associada da burguesia. Assim, acaba também discordando de Stefan, que diz que os agentes do golpe foram as forças armadas e não os empresários. Dreifuss, também chamará a atenção para atuação de algumas associações que indicam ao Bloco Multinacional Associado, a necessidade de um golpe de Estado começando por uma campanha de desestabilização do governo pela inquietação política. Enfim, sua hipótese é de que 64 não foi um golpe das forças armadas contra Goulart, mas a culminância de um movimento civil-militar para a plena realização dos interesses do bloco multinacional-associado. Podemos perceber, que o que Dreifuss faz, é uma leitura marxista clássica ao defender a existência de um longo processo de luta política de um setor de classe pela implementação de seus interesses. Para Daniel Reis, a fragilidade do trabalho de Dreifuss está na superestimação da capacidade que aquelas associações teriam de conduzir o processo histórico.

Por fim, temos o trabalho de Daniel Reis, que afirma o golpe de 64 como reforço da hegemonia do capital internacional do bloco de poder. Ele tem a hipótese de que o golpe só foi possível pelo caráter amplo e heterogêneo da frente social e política que se reuniu para depor Goulart que conseguiu dar unidade às forças armadas. Chama a atenção para o fato de que se a preparação do golpe foi civil-militar, no golpe sobressaiu o papel dos militares.
E a terceira e última é a do papel dos militares. Destaca-se os trabalhos de: Gláucio Soares e do CPDOC. Vale destacar que como virtudes, o estudo da memória militar revela o caráter aparentemente disperso da conspiração; indica a necessidade de se diferenciar a atuação desestabilizadora da conspiração golpista civil-militar já que a desestabilização civil foi articulada e a ação militar ficou refém dos imprevistos; confirma a importância do anticomunismo e com o mal-estar com a suposta quebra de hierarquia e disciplina; confirma que o golpe decorreu de uma conspiração desarticulada; esclarecem a pouca importância atribuída pelos militares ao apoio militar norte-americano; revelam a falta de uma liderança militar durante o período de conspiração e a inexistência de um projeto de governo. No trabalho de Gláucio Soares, ele vai defender o golpe como essencialmente político e militar dizendo que ele não foi dado pela burguesia, independente do apoio que estas deram aos militares, ou seja, o golpe não foi uma conspiração dos grupos econômicos com o apoio dos militares, mas o contrário. Soares irá criticar a interpretação marxista por privilegiar as explicações econômicas e subestimar as demais e irá discordar de Dreifuss que acha que os aspectos explicativos do golpe estavam na articulação dos empresários em torno dos Ipes. Para Soares, o importante é destacar as motivações dos militares para o golpe, como: preocupação com o caos administrativo e a desordem política; o perigo comunista e esquerdista e os ataques à hierarquia e disciplinas militares.


O autor conclui seja quais for a causa ou causas d golpe, isto é, o golpe como sendo resultante dos condicionantes estruturais ou dos processos conjunturais ou ainda de episódios imediatos, que jamais esta conjunção de fatores adversos se repita.  

METODOLOGIA DE ENSINO-APRENDIZAGEM: ANALISANDO LIVROS DIDÁTICOS A PARTIR DA TEMÁTICA ESCRAVIDÃO


"Apesar de ilustre, o livro didático é o primo pobre da literatura, texto para ler e botar fora, descartável porque anacrônico: ou ele fica superado dados os progressos da ciência a que se refere ou o estudante o abandona, por avançar em sua educação." (BATISTA apud TALAMINI, 2009 )

Está citação é bastante interessante para começarmos este trabalho de análise de livros pois devemos ter em mente que o livro didático nunca será um best-seller pois ele é sempre superado e limitado a um tempo e sociedade. Tal trabalho, surgiu da proposição da análise de coleções de livros didáticos em que cada grupo da turma de Didática e Ensino de História II, deveriam escolher um requisito para ser analisado. Tinha-se quatro opções: historiografia, imagens, metodologia ensino-aprendizagem e exercícios e atividades. Queríamos fazer sobre a historiografia ou sobre as imagens, como já haviam sido escolhidos e sobrou como ultima alternativa a questão do ensino-aprendizagem, ficamos encarregados de observá-la em tais coleções. Tal questão de ter sobrado, já é bastante sintomática, pois é uma questão que muitos não ligam e que poucos pensão, já que se trata de algo tão complexo. Assim, pensamos bem e tivemos que adentrar num campo conceitual e pedagógico muito desafiador a nós, que nunca havíamos pensado em tal prerrogativa.

Feito esta consideração inicial, achamos válido indicar o nosso movimento de trabalho em torno das coleções. Num primeiro momento, deixamos livres a análise, e todos leram todos os livros sem nenhum critério analítico, foi mais um momento de reconhecimento mesmo do que de análise. Em seguida, buscamos alguns suportes teóricos, como o PNLD 2011 e textos como o de Sandra Oliveira e Ivo Matozzi. Após ter realizado a leitura, escolhemos alguns critérios analíticos sobre o conteúdo e o texto; o conhecimento, e, se os capítulos permitem a desenvoltura da competência de leitura e escrita, a partir das seguintes proposições:
- se as estratégias didáticas da obra, tanto os textos quantos as atividades e as variadas fontes, favorecem o desenvolvimento de diferentes habilidades cognitivas tais como observação, análise, síntese, generalização, comparação; e se desenvolvem a competência de leitura e escrita do aluno;
- se os textos-bases são: simples e claros,ou longos e difíceis, ou enxutos e sintéticos, com riqueza de informações ,e , se buscam fazer pontes com o presente;
- se contribuem para a percepção das relações entre o conhecimento e suas funções na sociedade e na vida cotidiana;
- se há relação da abordagem dos conteúdos com os conhecimentos prévios dos alunos.

Escolhemos estes critérios porque os pequenos ensaios de inquerir ou comparar fontes, confrontar interpretações sobre um mesmo fato etc, revela o intuito da construção do conhecimento histórico. O texto por sua vez justifica-se por ser algo central para a História, porque é dele que depende a qualidade do que compreendemos e aprendemos sobre historia. Ele é um instrumento regulador e mediador entre a didática e a organização dos processos de aprendizagem. E para se ter uma aprendizagem significativa caracteriza-se pela interação entre um novo conhecimento e um conhecimento prévio. Nesse processo, que não é literal e nem arbitrário, o novo conhecimento adquire significados para o aprendiz e o conhecimento prévio fica mais rico, mais diferenciado, mais elaborado em termos de significados, e adquire mais estabilidade.

Buscamos entender também o que é método, que segundo Manfredi, é uma palavra que vem do latim methodos e significa caminho para chegar a um fim, no caso específico da educação escolar, o fim último seria a aprendizagem do aluno. Assim, ao abordar métodos de ensino e de aprendizagem, trata-se de um caminho para se chegar ao objetivo proposto. (Manfredi, 1993) Sabendo que método envolve a questão do ensinar e aprender, usamos o texto de Sandra Oliveira como suporte teórico para problematizar tais ações. Segundo tal autora, aprender é estabelecer relações entre informações, produzindo conhecimento no intento de solucionar problemas de diferentes tipologias. O ensino e a aprendizagem de diferentes saberes na escola só são possíveis se nos situarmos no campo da vida. (OLIVEIRA, 2013)

Antes de iniciarmos a análise propriamente dita das coleções, creio que seja válido apresentar dois importantes marcos retirados do PNLD 2011 que envolveram a classificação de dois dos aspectos das coleções. O primeiro, diz respeito às concepções de história, e o segundo, trata do perfil das coleções. Quanto ao primeiro, as coleções podem ser de história Integrada que são as que tem um agrupamento temático pautado pela evocação da cronologia linear de base europeia integrando-a, quando possível, à abordagem dos temas relativos à história brasileira, africana e americana; ou, de história temática, que são as que ocorre quando os volumes são apresentados não em função de uma cronologia linear, mas por eixos temáticos que problematizam as permanências e transformações temporais, sem, contudo, ignorar a orientação temporal assentada na cronologia. Já o perfil das coleções pode ser classificado em coleção de perfil Informativo que é aquela que busca fornecer informações ao estudante, de modo a constituir uma referência de erudição histórica; coleção de perfil procedimental que pauta pela valorização de aspectos de problematização de fontes, de modo a priorizar a dimensão do procedimento histórico no processo de construção da narrativa e da explicação histórica apresentada aos alunos, e, coleções de complexificação do pensamento, que pauta-se também numa educação histórica para o procedimento histórico e se preocupa com a complexificação da linguagem e/ou alternativas didáticas para o amadurecimento intelectual e afetivo dos estudantes.

Comecemos então a análise das coleções escolhidas. A coleção intitulada Historia - sociedade e cidadania baseia-se na adoção da história integrada e a cronologia prevalece como um elemento articulador da obra. Usa diferentes tipos de fontes, como imagens, fotografias e poemas, mas não as problematizam. Na seção Dialogando busca-se reflexões e empatias históricas e também uma relação entre o conhecimento histórico e suas funções práticas, permitindo reflexões sobre a realidade social, o estabelecimento de pontes entre o passado e o presente e o diálogo com conhecimentos prévios dos alunos. Alguns capítulos, como o capítulo 1 do livro de 9º ano: Africanos no Brasil: dominações e resistência, também dispõem da seção Para Refletir, que traz textos e imagens capazes de gerar questionamentos, como a questão da perda do nome do escravo no embarque para o Brasil.
As atividades, dispostas ao final do capítulo nem sempre integram os conteúdos apresentados no capítulo que acabam sendo trabalhados isoladamente. Apesar de os exercícios propostos buscarem desenvolver múltiplas habilidades, verifica-se que a pesquisa, a ser desenvolvida de forma individual ou em grupo, muitas vezes, é usada para dar conta de conteúdos não abarcados pela coleção como no capítulo 15 do livro de 8º ano, em que se pede para pesquisar em grupos sobre as condições de vida dos trabalhadores rurais empregados no corte e na colheita da cana-de-açucar.
O texto-base, é fácil de compreensão, e é construído sob uma estrutura mais informativa de datas, fatos e nomes e menos argumentativa. Conceitos considerados mais complexos estão marcados em amarelo e explicitados à margem dele.
A questão afrodescendente na atualidade está presente no livro do 8º ano com textos que fazem menções às lutas contra o racismo. Apesar do livro apresentar o negro atualmente, mostra só imagens de negros bem sucedidos no Brasil, como atores, músicos etc.
A história envolvendo escravidão, aparece no 8º através do trabalho nos engenhos e nas senzalas e no do 9º ano através das questões culturais, a travessia, o trabalho, a alimentação, a violência, as resistências e os remanescentes de quilombos.

A segunda coleção é a História em Projetos, que é organizada a partir da proposta de história integrada e a organização de conteúdos é cronológica. As atividades conduzem a aprendizagem colaborativas, isto é, em grupos, e apresentam as temáticas históricas por envolver comparações de temporalidades, semelhanças, diferenças, pontos de vista e construção de inferências, opiniões.
Os capítulos não se organizam a partir de um texto-base, mas de um conjunto de exercícios e problematizações que se pretendem como guias da aprendizagem. É uma coleção que exige muito trabalho do aluno e muito conhecimento do professor, que deverá sempre estar mediando para que o conhecimento seja significativo. Aborda questões atuais e/ou relacionadas à vida do aluno, com a promoção de complexas relações entre presente e passado. Contém diversas fontes históricas como textos, poemas, caricaturas etc, mas não são discutidas sob o ponto de vista de sua abordagem metodológica.
Os capítulos apresentam problematizações que iniciam o tratamento do conteúdo e sondam os conhecimentos prévios dos alunos; traz documentos de cunho explicativo e sequências de atividades que conduzem a leitura e a discussão de aspectos em torno do tema; e incentiva a capacidade de escrita do aluno ao fazer com que eles façam inferências e interpretem fontes diversas.
Os afrodescendentes são abordados como sujeitos históricos no 8º e 9º ano. Não há, pois, sua vitimização ou folclorização, mas o esforço em positivar suas experiências, saberes e bens culturais. E a história envolvendo escravidão, aparece nos 8º e 9º anos. No livro do 8º ano, temos a escravidão na América colonial e no do 9º ano temos o fim do tráfico e a abolição da escravidão, o racismo, o 13 de maio, etc.

A coleção Saber e Fazer Historia se estrutura sobre uma proposta cronológica linear da história integrada. Para estabelecer relações entre o passado e o presente, há proposições na
apresentação dos capítulos. No texto-base predomina a descrição e a apresentação dos conteúdos sem uma devida problematização e reflexão que conduz e a experiência social dos alunos.
As competências de leitura e escrita são estimuladas pela presença de variados gêneros textuais e por meio de atividades que solicitam a produção de diferentes tipos de expressão. As atividades e exercícios produzem diferentes tipos de expressão por serem apresentados de modo variado, sendo, em sua maioria, formulados com clareza e correção.
A questão do afrodescendente, aparece no livro de 9º ano e é focalizado no tratamento da escravização, da exploração, do choque cultural e se dá por meio de um viés essencialmente eurocêntrico. Quando se trata de questões do tempo presente, aborda-se a exclusão social, a destruição das culturas e a desterritorialização. A história envolvendo escravidão, aparece nos 8º e 9º anos. No 8º ano, aparece a questão do trabalho escravo, os castigos, os locais de convívio, o tráfico negreiro, a escravidão na África e as resistências. Na do 9º ano reaparece o fim do tráfico negreiro e a vida dos trabalhadores escravos.

A quarta coleção é a da História em Documento: Imagem e texto, que trata de modo integrado a história tomando por referência a exposição cronológica dos conteúdos. Ela se utiliza de textos da literatura na apresentação dos capítulos, o que favorece o processo de ensino/aprendizagem da História mediante o estímulo à leitura.
O texto-base é informativo e claro, mas não há uma conexão com o tempo presente nem a transposição dos conteúdos para o cotidiano. A relação entre o tempo e a sociedade do aluno e os processos históricos é efetuada de maneira episódica por meio das atividades e das leituras complementares que compõem as seções Saiba Mais e Dossiê.
A valorização do conhecimento prévio do aluno ocorre de maneira restrita e vinculada, em sua maioria, aos exercícios. Há uma grande quantidade de fontes e de textos complementares diversos o que possibilita o desenvolvimento da competência de leitura e de escrita do aluno. Nos capítulos, ocorre o desenvolvimento da temporalidade histórica de modo a reforçar a noção de simultaneidade e da adoção de exercícios e atividades que estimulam a socialização, a percepção da ordenação e sequência dos acontecimentos históricos em diferentes espaços e tempos.
A discussão em torno da situação dos afrodescendentes no Brasil não aparece, o que é preocupante, pois não demonstra uma noção de continuidade e descontinuidade na história. Já o tema escravidão aparece no 8º ano trazendo aspectos da África e do comércio de escravos e a vida dos escravos no Brasil. E no livro do 9º ano, temos os diferentes tipos de trabalhos escravos, o fim do tráfico e a abolição.

Na coleção História da Caverna ao Terceiro Milenio temos uma história integrada e linear. Na apresentação do capítulo, explora-se a relação passado/presente. O texto-base é expositivo, informativo, claro e mostra-se distante daquilo que pauta as atividades complementares. Contudo, as atividades e exercícios com variedades de estratégias contribuem para que os alunos estabeleçam relações entre a vida prática no presente e no passado e que construam um pensamento histórico.
A questão da afrodescendência aparece no 8º e 9º ano, ao se discutir manifestações contra preconceito e desigualdade social. E a história envolvendo escravidão, aparece no 8º ano através da África como um todo, no trabalho escravo, na violência e nas resistências, e, no 9º ano através da abolição.
A sexta coleção analisada chama-se Projeto Radix e é uma coleção organizada a partir de uma proposta de história integrada e linear. Nela há diversas atividades com documentos que incentivam o aluno a ler, escrever, construir interpretação própria e a lidar com a oposição de argumentos, como a seção Trabalhando com documentos. É uma coleção que consegue propor problemas que conectam passado e presente. No texto-base predomina a ênfase em uma narrativa linear, informativa e factual, e, cada capítulo se inicia com um conjunto de imagens (seção Para começar) a partir das quais se problematizam as temáticas a serem trabalhadas.
A temática sobre os afrodescendentes não está pautada nos livros do 8º e 9º ano, o que é algo preocupante, pois acha que o que já deu em anos anteriores não precisa ser retomado. É algo que cai naquela velha história “conteúdo dado é conteúdo aprendido”. Já a história envolvendo escravidão, aparece nos 8º e 9º anos. No 8º ano trata da escravidão na África, do trabalho de escravos nos engenhos, sobre o que é ser escravizado, resistências. No de 9º ano trás o fim do tráfico negreiro e o fim da escravidão.

Já a coleção Historia Tematica adota a perspectiva de história temática que transcende a narrativa linear e factual. O texto-base não é informativo e apresenta situações problematizadoras que instigam a reflexão histórica.
As atividades não estão isoladas no final dos capítulos, mas se integram aos temas tratados, como elemento constitutivo de seu aprendizado. A coleção também explora a comparação de textos e fontes históricas, o que favorece uma atitude formativa e crítica já que há uma variedade de documentos e registros históricos, estratégias de problematização e relacionamento entre passado e presente, incentivo ao debate e à reflexão crítica sobre temas polêmicos e atividades associadas à construção do conhecimento histórico.
A situação dos afrodescendentes na atualidade é trabalhada no 8º ano, onde a temática vincula-se ao reconhecimento constitucional dos afrodescendentes, às terras remanescentes de quilombos e à vida cotidiana desses grupos.
A história da escravidão aparece nos livros do 8º ano discutindo o que é ser escravo e o que é ser livre, a escravidão na atualidade, o que é ser escravizado, a escravidão nas Américas, os quilombos. No livro do 9º ano, a escravidão aparece em um tópico juntamente do tema da cafeicultura e ferrovias informando sobre as leis contrárias à permanência de tal prática.

Por fim, temo a coleção intitulada Projeto Araribá que tem uma narrativa construída a partir de uma visão de história integrada e linear. A coleção tem uma grande diversidade de atividades (comparação, análise, redação) e procura explorar os conhecimentos prévios dos alunos sobre a temática a ser abordada.
Há uma subseção, Compreender um texto, em que se apresentam diferentes tipologias textuais com o objetivo de estimular a competência leitora. A seção Ontem e hoje estabelece conexões entre passado e presente, permanências e transformações. As seções Ciência e tecnologia e Em foco também conduzem à reflexão sobre a realidade do aluno.
A situação dos afrodescentes na atualidade aparece no 8º ano, relacionada à luta por cotas para trabalhadores negros e igualdade de direitos. E a história envolvendo a escravidão, aparece no 8º ano apontando a escravidão africana na América, as feitorias, o trabalho escravo, a casa-grande e a senzala, as resistências, as relações entre senhores e escravos e alguns padrões culturais.

Enfim, de acordo com tais critérios, podemos ver que de modo geral, predomina nos livros didáticos os mesmos conteúdos e de forma geral tendo textos bastante informativos, com raras exceções, como é o caso da História temática. Podemos também observar que na maioria dos livros não tem uma conexão entre quem escreveu o capítulo e quem elaborou as atividades. Isto se deve ao fato de que o livro é uma mercadoria e sofre um processo de produção fordista, em que pessoas diferentes são conntradas para montar o texto ou para montar as atividades. Há ainda o predomínio de uma história tradicional e positivista, apesar de nos livros do 6º ano as coleções proporem seguirem uma história cultural. A maioria das coleções fazem uso de diversas fontes, mas não as problematizam, é como se quisessem só aparentar serem modernas. Enfim, os livros didáticos não mudaram em quase nada e continuam desgarrados da realidade do aluno. Assim, o professor terá um desafio pela frente. Contudo, sabemos que o livro não pode ser totalmente desprezado, pois pelo menos nos nosso primeiros anos de carreira, ficaremos reféns dele. Entretanto, deveremos saber escolher um livro que esteja de acordo com o contexto que estamos inseridos, e se pegarmos um livro totalmente inadequado para o processo de ensino-aprendizagem que pensamos, que saibamos pelo menos usá-lo como uma fonte problematizadora para podermos assim construir uma noção e conhecimento histórico. Em suma, como propõe Matos, só devemos no processo de ensino-aprendizagem tomar o livro didático como um instrumento contributivo, desde que o professor o perceba como um produto da sociedade de consumo e o utilize dentro de seus limites apenas como um recurso e não como um meio pelo qual o ensino-aprendizagem se realiza.

Vale destacar que há uma questão legal - a lei 10.639/03 - que diz respeito aos conteúdos históricos e normativas programáticas quanto ao currículo escolar de História. Essa lei regulamenta a obrigatoriedade do ensino da tématica africana nas escolas públicas e privadas para a educação básica. Vale ressalvar que não há nenhuma lei que trate da obrigatoriedade de algum tema histórico a não ser estas duas. Portanto, o professor tem uma autonomia para conseguir fugir da história europeizante e quadripartida. Vale ressaltar também que tais leis são uma forma política de tais movimentos étnicos de garantirem uma afirmação identitária frente ao exclusivismo que vinha e vem ocorrendo a estes perante ao conjunto da sociedade.

Pereira ressalta que propor algumas temáticas ao campo da História, não era nenhuma novidade, e que muitos docentes, mesmo antes da edição dessa regulamentação legal, já desenvolviam propostas para a desconstrução de estereótipos, permitindo que os alunos construíssem novas concepções acerca dos processos históricos, do significado do advento de novos sujeitos sociais e das interações culturais pautadas pela valorização da pluralidade cultural. A novidade, seria então, a obrigatoriedade de inserir determinados conteúdos históricos presentes de maneira dispersa no campo do ensino de história e de se valorizar temáticas sub-representadas ou abordadas de maneira equivocada para a educação básica, exigida, segundo Pereira, num contexto em que se lutava pela flexibilização curricular e pela afirmação da autonomia docente para a democratização da escola como instituição social. Enfim, com essa lei, segundo Pereira, fica instituído um cenário instigante,heterogêneo e paradoxal, marcado por contradições e com desdobramentos que fazem sentir a emergência das várias e diversas propostas, ações, inquietações e dilemas no campo do ensino de história.

A autora ainda trata no seu texto que tal lei foi seguida pela publicação das “Diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana”, em outubro de 2004, que apresenta dimensões normativas, sugerindo referências, formas de abordagem, conteúdos programáticos e valores para a ação docente, ressalvando um trabalho interdisciplinar e de uma reconfiguração das concepções de história, em sintonia com o pressuposto formativo e educativo da valorização da pluralidade cultural. O texto das “Diretrizes”, segundo Pereira, é estruturado em duas partes: na primeira parte, estão explicitas as questões introdutórias que justificam e fundamentam a promulgação da lei, como a demanda histórica da população afro-descendente pela implementação de políticas de reparação e valorização de sua história, cultura e identidade; a demanda da comunidade afro-brasileira pela valorização e afirmação de direitos; o reconhecimento e o respeito às pessoas negras; a necessidade de uma “reeducação das relações entre negros e brancos”. E na segunda, são apresentadas as orientações e determinações normativas, expressas por meio de três princípios: a consciência política e histórica da diversidade brasileira, o fortalecimento de identidades e de direitos e as ações educativas de combate a discriminações.

Durante o restante do texto, a autora fará algumas considerações sobre a aplicabilidade da lei e de seus impactos na educação básica, em especial na prática docente, que ainda merece uma maior compreensão e problematização devido ao curto espaço de tempo da lei. Contudo, para Pereira, já se podemos identificar na recepção da lei por docentes algumas inquietudes principalmente conceituais, conteudistas, como o que é raça? O que é racismo? O que é anti-racismo? Como posso compreender a história do racismo? E do racismo brasileiro? O que é cultura? O que é identidade? Para a autora, tais questões revelam algumas fragilidades da formação superior em história, indicando, sobretudo, a precariedade da exploração da interdiciplinaridade entre a história, a sociologia e a antropologia e afirma que o profissional de história terá que ter uma compreensão mais substancial sobre o Brasil e enfrentar o desafio de que a compreensão do racismo brasileiro possa, por exemplo, promover ações docentes sustentadas e reflexivas, problematizadoras de situações vivenciadas no cotidiano escolar.
Pereira ainda destaca que há mais algumas inquietudes que são do campo da ação pedagógica e que nos indicam que os impactos da Lei 10.639/03 não recaem somente sobre os conteúdos, mas dizem respeito, também, à compreensão das finalidades do ensino de história e seus desafios, que não são pequenos. A autora afirma que não basta apenas introduzir conteúdos de história e cultura afro-brasileira ou africana para a superação das abordagens históricas europeizantes, mas que temos que promover um ensino-aprendizagem em que tal história não seja dicotomizadas, nem idealizadas, mas compreendidas em sua dinâmica e circularidade.

Pereira, atenta para a questão da identidade e afirma que as diferentes formas de expressão identitária não podem ser vistas como contrapostas ou adversas. Isso não implica tampouco que pelo ensino de história não sejam valorizadas as diferentes culturas, também compreendidas pela reflexão a respeito de suas singularidades. Mas isso não implica transformar o ensino de história numa ação pedagógica que tem por finalidade a formação de consciências identitárias. Enfim, a autora nos diz que com a lei 10.639, está prevista a abordagem da história e cultura afro-brasileira, que muitas vezes é traduzida pela apropriação positivada de componentes distintivos de suas tradições para a composição de um mosaico de registros afro-brasileiros no Brasil contemporâneo, resultando no reforço de um “jeito próprio de ser” do afro-brasileiro, que coloca-os como vítimas e essencialmente importantes para nós, por terem deixados certas tradições.

REFERÊNCIAS

MANFREDI, Sílvia Maria. Metodologia do ensino - diferentes concepções. Campinas, 1993.

MATOS, Júlia Silveira. Os livros didáticos como produtos para o ensino de história: uma análise do plano nacional do livro didático –––– pnld. Historia, Rio Grande, 3 (3): 165-184, 2012.

MATTOZZI, Ivo. Ensenãr a escribir sobre la historia. Enseñanza de las Ciencias Sociales, (Marzo de 2004), pp. 39-48.

MOLINA, Ana Heloisa. Ensino de história e Imagem: possibilidades de pesquisa. In. Domínios da Imagem, MOREIRA, Marco A. Aprendizagem Significativa Subversiva. In: Série Estudos, Periódico do Mestrado em Educação da UCDB, Campo Grande – MT, n.21, jan/jun. 2006.

OLIVEIRA, Sandra Regina Ferreira de. Saberes indisciplinados: os conteúdos da história na escola e as aprendizagens para a vida. Revista História Hoje, v. 2, nº 3, p. 201-216 – 2013.

PRIORI, Angelo. A concepção de história nos manuais ria nos manuais didáticos: uma releitura. História & Ensino, Londrina, 01: 17-22, 1995.

STEPHANOU, Maria. Instaurando Maneiras de Ser, Conhecer e Interpretar. Rev. bras. Hist. v. 18 n. 36 São Paulo , 1998.

TALAMINI, Jaqueline Lesinhovski. O uso do livro didático de história nas séries iniciais do ensino fundamental: a relação dos professores com os conceitos presentes nos manuais. Dissertação – Universidade Federal do Paraná, Programa de Pós- Graduação em Educação, Curitiba, 2009.

Guia de livros didáticos: PNLD 2011. História. – Brasília : Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2010.

Anarquismo: definição e características

De acordo com Luigi Biondi, a palavra anarquismo, de origem grega, é a junção da palavra archon (governante, soberano) e o prefixo an (que quer dizer sem) que significa, portanto, viver sem um governante, sem uma autoridade. Assim, anarquismo é o nome que se dá a uma “teoria” que prega uma sociedade sem governo, na qual se vive em harmonia, não por submissão à lei, mas por acordos livres estabelecidos. Normalmente, de acordo com Biondi, a palavra é confundida como  sendo sinônimo de caos e o anarquista é tido como um homem sem princípios capaz de tudo. Vale ressalvar que dentre os anarquistas houve pessoas que acabaram realizando atos de violência, mas normalmente como uma reação ou uma forma de protesto, e nunca como um fim por si mesma. Para Malatesta, e eu concordo com ele, a anarquia não é confusão, e ser anarquista não é ser bagunceiro, baderneiro. Para ele, anarquia significa sem poder e anarquismo é o movimento que luta por uma sociedade em que ninguém tenha poder sobre ninguém. Portanto, é preciso, para uma melhor compreensão das ideias e atitudes que caracterizam o anarquismo, se livrar destas conotações pejorativas que o termo acabou por incorporar, pois na sua grande maioria, os anarquistas eram pessoas de princípio e que apesar das variações que existem dentro da própria concepção de anarquia, concordavam sobretudo na crença de que o Estado é ao mesmo tempo perigoso e desnecessário.

Os anarquistas também são conhecidos como àcratas ou libertários, e segundo Malatesta, o anarquismo em suas origens, aspirações e em seus métodos de luta, não está necessariamente ligado a qualquer sistema filosófico. Ele nasceu da revolta moral contra as injustiças sociais quando os homens se convenceram de que boa parte do sofrimento humano não era consequência inevitável das leis naturais, mas que derivava de realidades sociais dependentes da vontade humana e que podiam ser eliminados pelo esforço humano, abrindo-se então o caminho que deveria conduzir ao anarquismo. Enfim, a anarquia, de acordo com tal autor, é uma forma de vida social em que os homens vivem como irmãos, sem que nenhum possa oprimir e explorar os demais, e em que todos os meios para se chegar ao máximo desenvolvimento moral e material estejam disponíveis para todos, e o anarquismo é o método para realizar a anarquia.

Apesar de não estar obrigatoriamente ligado a um sistema filosófico, concordo com Woodcock, que nos afirma ser necessário entender o anarquismo como um movimento bem definido de filosofia social que em determinados momentos passa à ação. É um movimento de ação porque as idéias anarquistas são colocadas no momento em que a revolução acontece. Os anarquistas são teóricos da sua prática e práticos da sua teoria. Em outras palavras, de acordo com tal autor, é em função do agir sobre a realidade que qualquer teoria social se vai elaborando, enriquecendo e se auto-corrigindo. Cada sucesso ou fracasso, impõe uma reavaliação do nosso pensar. Esta relação primordial entre teoria e prática, sempre existiu no movimento anarquista e eles não querem cristalizar o anarquismo em dogmas e nem impô-lo pela força. Para Malatesta, o anarquismo será o que puder ser e se desenvolverá na medida que os homens e as instituições tornem-se mais favoráveis à liberdade.

Tentarei esquematizar agora os fundamentos da teoria e do movimento anarquista, que são:
a) Antiestatalismo: abolição de todo tipo de Estado, considerado como a coluna da exploração capitalista e de todas as desigualdades. Os anarquistas não querem servos e nem senhor, isto é, não aceitam que ninguém tenha poder sobre eles e nem querem ter poder sobre ninguém.
b) Revolução: só se terá a sociedade comunista anárquica através das revoluções;
c) Ação Direta: é a preparação da revolução final que abolirá o Estado e a propriedade através de
insurreições, motins e greves gerais contra a exploração capitalista, contra o Estado e suas autoridades, e contra o poder da Igreja, enfim, é um movimento de ação direta porque as idéias anarquistas são postas no momento em que a revolução acontece.
d) Anti-parlamentarismo: pregando a revolução e a ação direta, e sendo contrários a todo tipo de hierarquia e ao Estado, os anarquistas são também contrários à formação de partidos que participem de eleições. Nunca poderá existir um partido anarquista;
e) Liberdade Individual e cooperação: os indivíduos livres são a realidade primeira e final da sociedade. Todo homem tem que ser livre e, portanto, prega-se a abolição de todo tipo de hierarquia na sociedade e a observação de um comportamento pelo qual os únicos limites da ação de cada um são a consideração em relação ao respeito da individualidade dos outros: a solidariedade entre indivíduos iguais. Em outras palavras, o único limite à liberdade de cada um deveria ser a liberdade do outro. O homem não é naturalmente bom, mas naturalmente sociável, e são as instituições autoritárias que desviam e atrofiam suas inclinações para a cooperação.
f) Igualdade: a igualdade é um meio para a liberdade. Não tem sentido igualdade sem liberdade. Mas a liberdade de fato só seria possível com a igualdade de fato.
g) Internacionalista: não aceita fronteiras, nem nações, da mesma forma que não aceita o Estado.
h) Anti-discriminação: é contra qualquer tipo de discriminação. O respeito às opções individuais é uma conclusão lógica do respeito à liberdade de cada indivíduo.
i) Autogestionário: como não aceita o poder de uma pessoa sobre a outra, não aceita a existência de chefes, nem de patrões, nem de burocratas, mas de um trabalho livremente coordenado. Segundo Woodcock, os anarquistas não rejeitam a organização, mas nenhum deles procura dar-lhe uma continuidade artificial. Na verdade, as ideias básicas do anarquismo, com sua ênfase na liberdade e na espontaneidade, excluem a possibilidade de uma organização rígida.

Vale ressaltar que todos os anarquistas contestam a autoridade e muitos lutam contra ela, mas que isso não significa que todos aqueles que contestam a autoridade e lutam contra ela devam ser considerados anarquistas. Segundo Woodcock, o anarquismo é a doutrina que propõe uma  crítica à sociedade vigente; uma visão da sociedade ideal do futuro e os meios de passar de uma para a outra. E assim, a simples revolta irracional não faz de ninguém um anarquista, nem a rejeição do poder terreno com bases filosóficas ou religiosas.Vale também lembrar que o anarquismo também não combate esta ou aquela forma de Estado, mas o Estado em si, tanto o monarquista quanto o republicano, e que não se põe contra a sociedade por saber que o indivíduo não pode viver fora dela, porém enxerga que para um melhor funcionamento da sociedade é preciso a abolição do Estado. Ao invés da incursão na guerra de todos contra todos (o homem é o lobo do homem) de Hobbes, a sociedade sem governo sugere aos anarquistas a possibilidade de relações humanas criativas e pacíficas. Aqui, vale a pena citar Proudhon que resumiu a posição  anarquista em seu famoso slogan “Anarquia é Ordem”, ou seja, se um homem busca justiça na igualdade, então a sociedade busca ordem na anarquia pois o governo não é necessário para a preservação da ordem.

Para concluir, vale lembrar que os anarquistas podem estar de acordo quanto aos seus objetivos básicos, mas, segundo Woodcock, demonstram ter profundas divergências quanto às  táticas  necessárias  para atingir esses objetivos, especialmente  no que se refere à violência. E percebemos isto nos movimentos de julho de 2013 que ocorreram no Brasil. Alguns não admitiam a violência em quaisquer circunstâncias, e outros a aceitavam embora com certa relutância. Enfim, o anarquismo é a um só tempo diversificado e inconstante. Como doutrina,e concordo novamente com o autor, o anarquismo muda constantemente, como movimento, cresce e se desintegra, em permanente flutuação, mas jamais se acaba. Assim, para Woodcock, a anarquia instaurar-se-á pouco a pouco, para se intensificar e se ampliar cada vez mais. E não se trata, portanto, de chegar à anarquia hoje ou amanhã, mas caminhar rumo à anarquia hoje, amanhã e sempre.